Se você é um entusiasta da vida nas cidades, assim com eu, você deve ter ouvido falar sobre smart city (cidade inteligente) ou até está trabalhando com isso. Mas há algumas questões que talvez não estejamos focando como deveríamos (veja o fracasso da Leap Transit em San Francisco). Comecei a pesquisar o tema de revitalização urbana e defesa de políticas públicas numa pós-graduação em mídia e cultura que fiz na ECA-USP. De lá para cá tenho lido e escrito a respeito.

Recentemente, descobri dois autores que criticam a abordagem mais comum sobre smart cities. Fedor Novikov é uma amante das cidades como nós e com sua empresa, a Asmbld, está dando forma ao futuro com robôs. Ele também vem escrevendo sobre a relação entre meio ambiente urbano e tecnologias. Em um artigo recente, Novikov explica como o conceito “smart city” está fortemente vinculado às grandes corporações, como CISCO e IBM, e a seus interesses. Mas ao invés de nos aconselhar a evitar o conceito, Novikov alarga nossa visão sobre ele, mostrando as ligações ente smart city, história e política.

O grande insight do artigo do Novikov para mim é a noção de que nós não precisamos necessariamente da CISCO ou IBM para começar um projeto de smart city. Há uma grande variedade de dados sendo produzida por companhias das mais diversas áreas que poderia ser usada para alimentar soluções tecnológicas. É assim, por exemplo, que dados atualizados em tempo real, como a atividade no Twitter e as informações de uso de telefonia celular, podem ser usados para projetos urbanos, mesmo que não tenham sido produzidos para este propósito.

The company Habitadum has used Twitter activity data to feed its project for Denver downtown renovation.

A companhia Habitadum usou a atividade do Twitter como fonte para seu projeto de renovação do centro Denver.

Claro que grandes companhias podem ser necessárias em algum estágio do projeto, mas, como vimos, “smart city” é um conceito mais amplo que apenas negócios e tecnologia. Há também uma abordagem política, econômica e social. Não é apenas uma novidade bacana, é uma saída crucial para qualquer cidade que queira prosperar num mundo cada vez mais modelado pela sociedade da informação. Estas reflexões estão no artigo 6 inconvenient truths about Smart Cities, escrito por Rick Robinson.

Robinson é um executivo de TI que atua com tecnologias de smart city em larga escala, usando recursos relacionados à Internet das Coisas (IoT). No artigo citado, ele explica os riscos de deixar as grandes companhias liderarem as mudanças e mostra os benefícios de ter líderes ativos e cidadãos trabalhando para moldar o mercado e demandar as empresas. Com isso, é possível tornar os conceitos de “smart city” mais aderentes ás comunidades e, ao mesmo tempo, em larga escala.

A partir destas duas perspectivas e da minha experiência com estudos culturais, fiz uma lista como três ações recomendáveis para se tornar mais realista sobre smart city e suas tecnologias, como a IoT:

  • Comece agora  —  Ficar imaginando o quão incrível é a tecnologia não vai te dar a noção de como realizar um projeto na sua realidade local. Uma pesquisa inicial já ajuda.
  • Encontre parceiros —  Á medida que você desenvolve seus planos (um estudo, um artigo, um empreendimento), você vai conhecer as pessoas certas para convidar.
  • Compartilhe —  Smart City tem tudo a ver com comunidade. As pessoas vão curtir saber sobre projetos desenhados para melhorar a vida delas. Convide-as a participar e ouça os feedbacks.

Independente de você estar almejando toda sua cidade ou apenas uma pequena comunidade, lembre-se que você precisa de uma abordagem mais realista para tocar um projeto de smart city, a partir de uma perspectiva humana e sustentável.